O que eu tenho guardado pra te dar

Eu tenho algumas coisas guardadas pra você numa caixa que eu mantive fechada por quase um ano. Ali debaixo dos cabelos que demorei pra cortar, do peso que nunca perdi, dos desejos que ficaram como desejos mesmo.

Eu tenho àrvores. E elas tem histórias tão mágicas que você nem acreditaria!

Eu tenho olhos abertos e mãos prontas para serem tocadas.

Eu tenho uma memória de muitas músicas que você nunca ouviu. Tenho passos de dança pra te acompanhar.

Tenho receitas boas pra curar tristeza, pra fazer acordar cedo ou só pra bagunçar a cozinha mesmo.

Tenho ombros pra você colocar sua cabeça. Posso esconder sua escova de cabelo pra você deixa-los solto.

E eu tenho eu. Espero que você aceite.

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Sim.

No primeiro dia: You’re nice
No segundo dia: You’re very pretty
No terceiro dia: Olinda is pretty, Recife is beautiful. And you are both.

E no final: You’re wonderful. I hope you’ll find someone wonderful too.

Ainda preciso parar pra escrever sobre isso. Mas no meu coração e na minha memória, já tá tudo escrito. Vai ser pra contar pros netos.

whoever she is

1. She could be money, cars, fear of the dark
Your best friends are just strangers in bars

– Você vai beber mais uma cerveja? – o ele perguntou
– Não. Essa foi a última mesmo – e abriu a carteira, entregando-o uma nota de 20 reais – Sua gorjeta.
Ele sorriu. Sempre a mesma nota amarela de 20 reais.
– O bar vai fechar em pouco tempo. Tu precisa de táxi?
– Provavelmente.
Ela estava mais pálida que o normal. Os cabelos estavam mais longos do que o normal. E ele conhecia o normal, já que ela estava ali todas as quintas, por dois anos. O normal era curto atrás, com mechas mais longas na frente. Agora eles alcançavam os ombros, visivelmente estragados.
– Você pode esperar o bar fechar e a gente pode rachar um. Digo, se for o mesmo caminho.
– Um bartender que vai de táxi pra casa? – a sobrancelha dela arqueou.
– Um dono de bar que vai de táxi pra casa.
Por dois anos, ele a acompanhava todas as quintas. Servia cervejas, petiscos, recebia 20 reais de gorjeta. O dialogo era pouco. Mundano. Ela nem sabia que ele era o dono do bar, ao contrário de todos. Mas todos estavam sentados nas mesas, acompanhados, vivendo. Não ela. Ela se sentava no balcão.

Debaixo de um dos refletores, uma das partes mais claras do bar, mas ainda assim… distante.

– Eu moro a 20 minutos daqui. Norte.
– Eu também.
– Ok.

Ela o esperou nas escadas. Fumava. Jogou o cigarro no chão e estendeu a mão para o táxi assim que ele aproximou-se.

Passaram o caminho em silêncio. As únicas palavras trocadas foram instruções entre ela e o motorista.

Mesmo assim, compartilhavam o banco de trás do carro. Ela tirava as sapatilhas azuis dos pés, mexia na bolsa.

20 minutos depois, o motorista parava na frente de um prédio.
Ele a olhou procurar a carteira, as chaves e agradecer o motorista.
Pensou em dizer alguma coisa. Em perguntar. Em se convidar. Pensou e não falou.

– Até quinta.

As decepções maternas.

– Você soube que x e y vão se separar?
– Não, mãe.
– Passaram a vida todo juntos, casaram… e já vão se separar. X se apaixonou por outra pessoa. Teve tanto tempo pra se apaixonar por outra pessoa, vai se apaixonar agora.

Eu queria te dizer algumas verdades, mãe.

Tempo, pra o amor, não importa.
Tempo não importa pra muita gente, nem pra muita coisa. Na verdade, o tempo fica ali, sozinho, passando… enquanto tudo acontece independente dele. Como um eremita barbudo, perdido da civilização, envelhecendo.

A gente ama, desama, arma, desarma o coração, sente, se apega e depois joga, as coisas fluem. E o tempo tá ali, distante de tudo isso, como um espectador que nem tá tão interessado assim. Como quando a gente vai pro médico e, no lugar de se ocupar das atravessadas conversas alheias, a gente prefere ler a Caras. Mesmo que a Caras continue sendo a Caras.

Lembro de uma vez, depois da minha primeira grande decepção amorosa, eu chorando no teu ouvido e você me disse:
“Você já viveu seu amor. Não adianta procurar por outro. Você já amou. Não fique mais procurando isso. Procure algo mais simples”.

Mas não é assim, mãe. Amor – vou discordar da Louisa May Alcott – não tem ordem. O primeiro não é maior ou menor que o segundo, terceiro, o que seja. Vez ou outra alguém só tem o primeiro. As vezes, a gente só encontra amor, sei lá, no décimo sétimo. Essa é a verdade, mãe. A minha verdade.

Se o primeiro amor fosse mesmo, como você diz, simples, X e Y não estariam se separando. Não foi simples. Não é. O primeiro amor não é o fim. O tempo não se importar.

Só o sentimento importa, mãe. Infelizmente.

“Filipe,

Você bebe demais.

E esse seu jeito de pegar a garrafa de cerveja… parece um nórdico. Ou qualquer coisa de bárbaro. Escocês. Irlandês. Ou nórdico mesmo. Viking.
Mas acho que é proposital.

Cabelo propositalmente despenteado, barba propositalmente bagunçada, roupa propositalmente amassada.

Bem, ao menos algum proposito você tem. Sai à noite só, mas sempre tem amigos a cada dois passos que dá. Com o sorriso que você tem… acaba sendo fácil mesmo.

Minha mãe sempre dizia pra sorrir. Ser educada. Dar boa noite. Conquistaria as pessoas dessa maneira. Te invejo pelo simples fato de conquistar as pessoas apenas por existir.
Você não precisa dos cínismos das lições maternas. Você tem você mesmo.

Você bebe demais.

Você acha que o mundo te protege. E te ama. Todos, no fim, caem aos seus pés. Foi assim comigo. E é assim sempre.
Sua crença no amor é tão sólida quanto a minha crença no coelhinho da páscoa ou que sua pizza favorita é de mussarela. Não acredito e pronto.

Ah, Filipe…

Você bebe DEMAIS.

Fico lembrando de quando usei sua camisa xadrez, aquela azul com branco, que você deixou aqui em casa. ‘Tenho outras, fica pra você’, com aquele desprendimento e balançada no cabelo. Seu auto-cafuné, como eu costumava chamar.

Você nunca vai parar. Nunca.

Você bebe demais.

Depois de dois anos, voltei onde nós nos conhecemos. E lá estava você. Não me viu. Fiquei no mezanino. Propositalmente. Você sabe. Eu sei. Você nunca sobe. O que você tem que achar, tem que estar na sua frente. Como eu já estive.

E, depois de tudo o que nós passamos, a única coisa que consigo pensar sobre você hoje é…

Filipe. Você bebe demais.”

2014 like a hurricane

Resolvi começar o ano de 2014 enganando a mim mesma pela minha falta de planos.

Eu tento, né?

Só tento mesmo, sou uma negação nessa coisa toda. Mas 2014 começou bem, como uma brisa geladinha da Serra Gaúcha. E lá, na Serra Gaúcha, fiz a alegria de muitas inimigas e comi que nem uma porca. Rá. Mas comer é abrir um pouco os olhos pra o mundo ao redor e meu coração sente sua falta, polenta.

No mais, daqui a pouco chega o meu aniversário, daqui a pouco chega Socchi, daqui a pouco o mundo gira mais uma vez e eu preciso tomar um remédio pra dor de cabeça.

i’m going through changes

Bota pra tocar e vamos lá.

Do ano passado pra cá, minha vida virou de cabeça pra baixo. Eu tinha muitas coisas que hoje não tenho mais e tenho muitas coisas que nem imaginava ter. Hoje tenho amigos que eu nem imaginava que teria, relacionamentos mais complexos, laços mais fortes e maduros. Hoje eu assisto e entendo um tiquinho sobre Hockey, leio três livros por dia, estou aprendendo a conviver com a falta de planos e fracassos. Ano passado (e até um pouco de tempo desse ano), a melhor solução era confabular com meu próprio cérebro se valia a pena passar pra próxima fase ou eu devia simplesmente desistir do estágio atual. Como se a minha vida fosse um jogo de Candy Crush (que eu deletei do celular, me sinto vitoriosa).
2013 não foi fácil. Me fudi tanto em tantas coisas que eu nem lembro mais… e esse é o ponto. Eu nem lembro mais. E pra mim, que tenho uma memória prodigiosa, é bem difícil de acreditar. Mas em 2013, eu tive pra quem correr. Podia ligar pra alguém bater na minha casa quando eu não conseguia fazer nada, podia agendar uma viagem de última hora – e adiantar essa mesma viagem – pra fugir um pouco da realidade (e ser recebida de braços e abraços abertos). Recebi um primeiro pedaço de bolo, fui ombro pra chorar e chorei em outros ombros também. Dormi do lado, vi dormi. Abracei e abracei muito. E a gente vai recebendo sinais de que as coisas passam, ouvindo Fool for your loving, debaixo de chuva.

Não, nem Candy Crush tem tanta emoção.