As decepções maternas.

– Você soube que x e y vão se separar?
– Não, mãe.
– Passaram a vida todo juntos, casaram… e já vão se separar. X se apaixonou por outra pessoa. Teve tanto tempo pra se apaixonar por outra pessoa, vai se apaixonar agora.

Eu queria te dizer algumas verdades, mãe.

Tempo, pra o amor, não importa.
Tempo não importa pra muita gente, nem pra muita coisa. Na verdade, o tempo fica ali, sozinho, passando… enquanto tudo acontece independente dele. Como um eremita barbudo, perdido da civilização, envelhecendo.

A gente ama, desama, arma, desarma o coração, sente, se apega e depois joga, as coisas fluem. E o tempo tá ali, distante de tudo isso, como um espectador que nem tá tão interessado assim. Como quando a gente vai pro médico e, no lugar de se ocupar das atravessadas conversas alheias, a gente prefere ler a Caras. Mesmo que a Caras continue sendo a Caras.

Lembro de uma vez, depois da minha primeira grande decepção amorosa, eu chorando no teu ouvido e você me disse:
“Você já viveu seu amor. Não adianta procurar por outro. Você já amou. Não fique mais procurando isso. Procure algo mais simples”.

Mas não é assim, mãe. Amor – vou discordar da Louisa May Alcott – não tem ordem. O primeiro não é maior ou menor que o segundo, terceiro, o que seja. Vez ou outra alguém só tem o primeiro. As vezes, a gente só encontra amor, sei lá, no décimo sétimo. Essa é a verdade, mãe. A minha verdade.

Se o primeiro amor fosse mesmo, como você diz, simples, X e Y não estariam se separando. Não foi simples. Não é. O primeiro amor não é o fim. O tempo não se importar.

Só o sentimento importa, mãe. Infelizmente.

O caos e a companhia

Quem já esteve no meu quarto, pode defini-lo como caótico.

Cheio, bagunçado, colorido.

Ainda é.

E hoje eu sei o motivo.

Eu não sei conviver com o pouco, com o vazio. Caos, pra mim, é companhia. É amizade. É segurança. É conforto. Olhar, lembrar, deixar ali. Acho que é por isso que acabo me apegando a pessoas e não as deixo ir embora. Elas vão ficando, ficando, ficando, como uma traça presa no meu armário mental. E que eu vou colocando mais e mais papéis para ela ficar ali, alimentada, a coitadinha.

Em 2012, no inicio do ano, me livrei de tanta coisa. Não passou muito tempo. No fim do ano, me livrei de mais coisas ainda. Ao ponto de só terminar de arrumar tudo em três dias. Amigas com sacolas carregadas de coisas. Partes de mim, do que foram eu, que agora são delas.

E o caos vai fazer companhia para outras pessoas.

Esses dons que a gente não tem.

Sempre tive uma teoria sobre ‘dons’. Cada pessoa possui alguns. Pequenos, grandes. Por sorte, nos descobrimos quais são relativamente cedo, assim, poderemos aproveitar cada instante deles.

Eu, como quis, descobri os meus cedo. Escrever, ler e falar.

Sou dessas pessoas que se apresenta, que fala com todas as mesas da festa, que lê até noticias ruins de jornal, outdoors, propaganda num poste, crachá de frentista, que escreve qualquer coisa, em qualquer papel, de qualquer jeito.

Sendo assim, eu também descobri os dons que não possuo.

Não possuo – apesar de insistir em possuir – o dom da paz interior. Não possuo o sorriso largado, a gargalhada não contida, a felicidade instantânea. Essa alegria de acordar com o sol nascendo, com passarinhos cantando. Eu seria uma péssima princesa da Disney – talvez por isso que eu goste tanto das princesas.

Eu não nasci com o dor de tocar as coisas, encarar de frente. Eu finjo que não aconteceu, que as coisas continuam as mesmas. Eu não nasci com o dom de ‘tomar semancol’.

Mas, acreditem: eu insisto.

as não voltas que a vida dá.

Uma vez, eu vi uma propaganda de uma agência de intercâmbio que dizia: ‘Todo mundo volta diferente de uma viagem’.

No auge dos meus 21 anos, posso dizer que, nós últimos quatro anos, tenho feito pelo menos uma ‘grande’ viagem por ano (Dublin, Buenos Aires 1 e 2 e, agora, Rio de Janeiro, onde eu passei dez dias).

E, para ser muito sincera, essa foi uma das viagens mais importantes que eu já fiz.

Eu tinha planos e, cerca de um mês antes de entrar no avião, todos eles desmoronaram. Então, fui sem plano algum. Ia ficar em um albergue metade da viagem. Depois, sabe-se lá pra onde eu ia… Acabei ficando no albergue. Dividindo quarto com mais 13 pessoas, ouvindo todo tipo de sotaque, falando mais inglês que português. Sobrevivi ao Rio de Janeiro sem ir ao Cristo Redentor, ao Leblon, Ipanema, Pão de açúcar. Andar por Botafogo atrás de comida chinesa, descobrir as casas mais lindas, com as grades mais lindas… Tudo isso me atraía muito mais.

Não fazer planos me fez bem. Não só a mim, devo ser bem sincera. Não fazer planos me fez pegar uma barca num domingo chuvoso, me fez comprar um casaco, me fez pagar 18 reais em um empanado de camarão com cream-cheese, me fez beijar quem eu queria no momento mais errado, me fez dormir junto e separado, me fez ficar apaixonada por um Golden de 2 anos chamado Charlie, me fez acordar e ver um inglês dormindo pelado na cama logo abaixo da minha.

Fez com que eu me sentisse viva. E feliz, como nunca me senti antes.

Plantei e colhi. E ainda vou plantar mais e colher mais. Ou minha mãe vai fazer isso com as sementes de Dália que eu dei de presente pra ela…