Vez ou outra

Vez ou outra eu me pego pensando em tempo.

Nunca aprendi a ver horas no relógio direito, ainda tenho extrema dificuldade. Mas não consigo ficar sem usar um relógio.
Nunca aprendi a dividir meu tempo. Planejar atividades diárias. Não. Nunca. Desisto de tentar.

Vez ou outra me pego pensando em pintar o cabelo de loiro, em emagrecer 25 quilos, em fazer um piercing no nariz.

Vez ou outra. Vez em sempre.

o chopp, o sábado e a dor.

O chopp era verde. E desceu em três goles.

Assim, de uma vez. Tem que ser assim agora.

Uma água e alguns goles das cervejas alheias, dois jelly shots também se misturaram ali.

4:30 da manhã.

9:30 da manhã. Ressaca. Dor de cabeça. Minha mãe rindo de mim e eu ali, morta.

Até você.

Meio que estamos mortos mesmo. Os dois. Mas não fedendo. Estamos ali. Mortos e, de alguma maneira, livres.

Somos o ex-casal mais miserável do mundo.

hoje

I can listen no longer in silence. I must speak to you by such means as are within my reach. You pierce my soul. I am half agony, half hope. Tell me not that I am too late, that such precious feelings are gone for ever.

Hoje é aniversário da Jane Austen. Ou seria, se ela estivesse viva.

Hoje eu tive um daqueles dias doentes. Agonias, tristezas, dores, você sabe como é. Bate aquela tristeza, aquela vontade de te ver. Aquela vontade de dormir na sua cama, ali, encostada na parede.

Hoje, no ônibus, eu lembrava e comentava como era estar ali. Como era ter que me levantar e ‘lutar’ por um espaço. Como era cozinhar para você.

Hoje, na memória, eu fico repetindo suas frases. Seus gestos. Seus passos, caminhos, atitudes.

Hoje, eu só queria que fosse um daqueles dias em que a gente estava junto.

E hoje, eu queria que fosse pra sempre.

temporary and quick to sway

1. Never trust a cop in a rain coat
2. Beware of enthusiasm and of love, each is temporary and quick to sway
3. When asked if you care about the worlds problems, look deep into the eyes of he who asks, he will not ask you again.
4 & 5. Never give your real name, and if told to look at yourself, never look.
6. Never do or say anything that the person standing in front of you cannot understand.
7. Never create anything, it will be misinterpreted, it will chain you and follow you the rest of your life, it will never change.

Quer ir?

“Quer ir? Vai. Eu não vou segurar. Uma coisa que não dá certo é segurar uma pessoa contra a vontade, apelar pro lado emocional. De um jeito ou de outro isso vira contra a gente mais tarde: não fui porque você não deixou, ou: não fui porque você chorou. Sabe, existem umas harmonias em que é bom a gente não mexer. Estraga a música. Tem a hora dos violinos e tem a hora dos tambores.

Eu compreendo, compreendo perfeitamente. Olha, e até admito: você muda pra melhor. Fora de brincadeira, acho mesmo. Eu sei das minhas limitações, pensei muito nisso quando tava tentando te entender. É, é um defeito meu, considerar as pessoas em primeiro lugar. Concordo. Mas não tem mais jeito, eu sou assim. Paciência.

Sabe por que eu digo que você muda pra melhor? Ele faz tanta coisa melhor do que eu! Verdade. Tanta coisa que eu não aprendi por falta de tempo, de oportunidade – ora, pra que ficar me justificando? Não aprendi por falta de jeito, de talento, essa é que é a verdade. Eu sei ver as qualidades de uma pessoa, mesmo quando é um homem que vai roubar minha namorada. Roubar não: ganhar.

Compara. Ele dança muito bem, até chama a atenção. Campeão de natação, anda de bicicleta como um acrobata de circo, é bom de moto, sabe atirar, é fera no volante, caça e acha, monta a cavalo, mete o braço, pesca, veleja, mergulha… Não tem companhia melhor.

Eu danço mal, você sabe. Não consegui ultrapassar aquela fronteira larga entre a timidez e a ousadia, entre a discrição e o exibicionismo, que separa o mau e o bom bailarinos. Nunca fui muito além daquela fase em que uma amiga compadecida precisava sussurrar no meu ouvido:dois pra lá, dois pra cá.

Atravessar uma piscina eu atravesso, uma vez, duas talvez, mas três? Menino de cidade, e modesto, não tive córrego nem piscina. É com olhos invejosos que eu o vejo na água, afiado como se tivesse escamas.

Moto? Meu Deus, quem sou eu. Pra ser bom nisso é preciso ter aquele ar de quem vai passar roncando na frente ou por cima de todo mundo – e esse ar ele tem.

Montar? É preciso ter essa certeza, que ele tem, de que cavalo foi feito pra ser domado, arreado, freado, ferrado e montado. Eu não tenho. Não tá em mim. Eu ia montar como se pedisse desculpas ao cavalo pelo incômodo, e isso não dá, não pode dar um bom cavaleiro.

O jeito como ele dirige um carro é humilhante. Já viajei com ele, encolhido e maravilhado. Você conhece o jeitão, essa coisa da velocidade. Não vou ter nunca aquela noção de tempo, a decisão, o domínio que ele tem. Cada um na sua. Eu troquei a volúpia de chegar rapidinho pelo prazer de estar a caminho. No amor também.

Caçar… Dar um tiro num bicho… Ele tem isso, a certeza de que o homem é o senhor do universo, tudo tá aí pra ele. Quem me dera. Quando penso naquela pelota quente de aço entrando no corpo do bicho, rasgando carne, quebrando ossos… Não, não tenho coragem.

Aí é que eu tou perdido mesmo, no capítulo da coragem. Ele faz e acontece, já vi. Mas eu? Quantas vezes já levei desaforo pra casa. Levei e levo. Se um cachorro late pra mim na rua, vou lá e mordo ele? Eu não. Mudo de calçada.

Outra coisa: ele é mais engraçado do que eu. Fala mais alto, ri mais à vontade, às vezes chama até um pouco a atenção mas… é da idade. Lembra aquela vez que ele levou um urubu e soltou na igreja no casamento do Carlinhos? E aquela vez que ele sujou de cocô de cachorro as maçanetas dos carros estacionados na porta da boate’? Lembra que sucesso? Os jornais falaram por dias naquilo. Não consigo ser engraçado assim. Não tá em mim. Por isso que eu não tenho mágoa. Ele é muito mais divertido. E mais bonito também.

Vai.

Olha, não quero dizer que o que eu vou falar agora tenha importância pra você, que possa ter influído na sua decisão, mas ele tem mais dinheiro também, você sabe. Ele tem até, sabe?, aquele ar corajoso dos ricos, aquela confiança de entrar nos lugares. Eu não. Muito cristal me intimida. Os meus lugares são uns escondidos onde o garçom é amigo, o dono me confessa segredos, o cozinheiro acena lá do quadradinho e me reserva o melhor naco. É mais caloroso, mas não compensa o brilho, de jeito nenhum.

Ele é moderno, decidido. Num restaurante não te oferece primeiro a cadeira, não observa se você tá servida, não oferece mais vinho. Combina, não é?, com um tipo de feminismo. A mulher que se sente, peça o que quiser, sirva-se, chame o garçom quando precisar. Também não procura saber se você tá satisfeita. Eu sei que é assim que se usa agora. Até no amor. Já eu sou meio antigo, ultrapassado, gosto de umas cortesias.

Também não vou dizer que ele é melhor do que eu em tudo. Isso não. Eu sei por exemplo uns poemas de cor. Li alguns livros, sei fazer papagaio de papel, posso cozinhar uns dois ou três pratos com categoria, tenho certa paciência pra ouvir, sei uma ótima massagem pra dor nas costas, mastigo de boca fechada, levo jeito com crianças, conheço umas orquídeas, tenho facilidade pra descobrir onde colocar umas carícias, minhas camisas são lindas, sei umas coisas de cinema, não bato em mulher.

E não sou rancoroso. Leva a chave para o caso de querer voltar.”

Ivan Angelo

it’s a long way from home

Tô nesses dias que eu só escuto a mesma banda e planejo os mesmos planos.

Whitesnake e resoluções para 2013. Ganhei uma agenda e comprei um Moleskine weekly planner. No que isso vai dar? Bem, espero que não dê em mais papel acumulado na minha vida. Nem tem mais espaço.

Lembro de, no ano passado, eu ter ganho mil livros de aniversário e, pela manhã pós festa, ‘reclamei’ da falta de espaço. E olha, espaço eu arrumei. E o espaço acabou.
Acabou também esse amor pelo descontrole. Se eu não controlo meu quarto, como vou controlar minha vida? Essa sou eu, aos 21 anos, com uma mente de uma idosa de 99 anos. Não que eu vá virar uma maníaca controladora, longe disso, por que eu ainda sou aquariana… Mas vai que né?

Tá mais fácil não duvidar das coisas.

Amanda

Me perder nem era mesmo um problema.

Sozinha, eu olhava ao redor.
20B.

Onde diabos ela disse que parava o 20B? Onde diabos eu tinha colocado o mapa?

20B. 20B. 20B.

“Descer depois do Beuamont Hospital, 20B”

– Senhor, onde eu pego o 20B?
– Você vai pra Dublin 9?
– Pra Beaumont.
– Eu levo você lá, Amanda.

– Ei, meu nome não é Amanda. Você não está me confundindo com alguém?

– Não. Mas você se parece com Amanda.

Nesse dia, eu mudei de nome. E, de certa maneira, mudei de casa. Ali, eu era Amanda. Perdida na cidade que eu pertenço. Mas perdida com um sorriso maior do que o rosto.