As decepções maternas.

– Você soube que x e y vão se separar?
– Não, mãe.
– Passaram a vida todo juntos, casaram… e já vão se separar. X se apaixonou por outra pessoa. Teve tanto tempo pra se apaixonar por outra pessoa, vai se apaixonar agora.

Eu queria te dizer algumas verdades, mãe.

Tempo, pra o amor, não importa.
Tempo não importa pra muita gente, nem pra muita coisa. Na verdade, o tempo fica ali, sozinho, passando… enquanto tudo acontece independente dele. Como um eremita barbudo, perdido da civilização, envelhecendo.

A gente ama, desama, arma, desarma o coração, sente, se apega e depois joga, as coisas fluem. E o tempo tá ali, distante de tudo isso, como um espectador que nem tá tão interessado assim. Como quando a gente vai pro médico e, no lugar de se ocupar das atravessadas conversas alheias, a gente prefere ler a Caras. Mesmo que a Caras continue sendo a Caras.

Lembro de uma vez, depois da minha primeira grande decepção amorosa, eu chorando no teu ouvido e você me disse:
“Você já viveu seu amor. Não adianta procurar por outro. Você já amou. Não fique mais procurando isso. Procure algo mais simples”.

Mas não é assim, mãe. Amor – vou discordar da Louisa May Alcott – não tem ordem. O primeiro não é maior ou menor que o segundo, terceiro, o que seja. Vez ou outra alguém só tem o primeiro. As vezes, a gente só encontra amor, sei lá, no décimo sétimo. Essa é a verdade, mãe. A minha verdade.

Se o primeiro amor fosse mesmo, como você diz, simples, X e Y não estariam se separando. Não foi simples. Não é. O primeiro amor não é o fim. O tempo não se importar.

Só o sentimento importa, mãe. Infelizmente.

Vez ou outra

Vez ou outra eu me pego pensando em tempo.

Nunca aprendi a ver horas no relógio direito, ainda tenho extrema dificuldade. Mas não consigo ficar sem usar um relógio.
Nunca aprendi a dividir meu tempo. Planejar atividades diárias. Não. Nunca. Desisto de tentar.

Vez ou outra me pego pensando em pintar o cabelo de loiro, em emagrecer 25 quilos, em fazer um piercing no nariz.

Vez ou outra. Vez em sempre.

As flores.

Ele esperava um ônibus ali na avenida. Fazia algum tempo.

Olhou para a frente.

Do outro lado da rua, um homem carregava um buquê de rosas. Vermelhas.

Sentiu o coração apertar.

‘e se fosse eu?’.

Pensou nela.
Não que não pensasse com frequência. Pensava até. Pensava quando saia… Podia encontrar com ela em qualquer lugar. A cidade não era tão grande. E sabia que ela estava lá.

Pensou em quanto ela sonhava com flores.
Não com filhos, com a festa de casamento, com um jantar a luz de velas.

Ela sonhava com flores.

Com rosas, mas ela gostava de copos de leite.
‘São caros, amor. Rosas funcionam. Aliás, uma só’.

Uma rosa só. Ele não sabia o quanto custava.

Uma vez, ela pegou uma flor no chão. Colocou no cabelo, presa com um grampo. E sorriu.

Ele sentiu-se estranho. Ela estava linda, como sempre estava. Mas aquela flor ali… parecia errada.

Agora ele sabia o motivo.

As flores nunca haviam chegado. Talvez aquele garoto levando flores estivesse levando para ela.

Ela ia gostar tanto.

O coração começou a apertar. Ela merecia ganhar flores. Ela ia ganhar flores.
Mas… não dele.

Sentiu uma lágrima cair de rabo de olho. Levantou o rosto, viu o homem com as flores ir embora e o ônibus chegando.

Imaginou o sorriso que ela daria se as flores fossem para ela.

E, de alguma maneira… sorriu também.

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Primeiro eles te ligam. Eles, sua dupla de amigos que anda sempre junta.

Te pegam. E lá começa.

O primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto chopp.
Eles, você sabe, não bebem impar.

Depois, posto de gasolina. Mais duas pra você.
E mais duas na pracinha.

A cabeça dói, você já tinha chorado por todos os motivos possíveis. É impossível não falar dele. Não pensar nele. Não lembrar. Foi com ele que você ‘aprendeu’ a beber. E era com ele que você queria olhar nos olhos, sentar na pracinha com Stella Artois quente e engolir tudo de uma vez só.

Depois de se arrastar pelas escadas, você chega em casa. Tira o short, liga o ar, cai na cama.
Olha para o chão e vomita todas as costelinhas de porco, todo o nhoque. Tudo fica ali, no pé da sua cama. E, sem forças, você dorme.

Você acorda. 5hrs da manhã. Ao levantar, esquece do empecilho no caminho. Hora de limpar aquela bagunça. Limpa, escova os dentes, lava o rosto, bebe água. E, de alguma maneira, se sente mais leve. Sente que algo – que não sairia com o vômito – saiu de você.

Pelo menos um pouco.
E nem doeu tanto assim… até agora.

Sobre amar (ou você podia )

Você podia ter dito a verdade. É. Aquela que dói feito faca, que machuca que nem bater o dedo mindinho na quina da cama.
Você podia ter tentado mais um pouco. Não ia ser fácil porque nunca é fácil mesmo. Não foi no inicio, não ia ser agora.
Você podia ter vomitado. É, vomitado todas as palavras, tirado todas elas da garganta. Até as mais cruéis. Eu ia ouvir. Eu ouviria qualquer coisa vindo de você.
Você podia ter esperado. Mais um pouco, só mais um pouco. Eu não tiraria nada de você se você não quisesse.
Você podia ter feito tanta coisa.

Você podia não ter me amado. Principalmente porque foi correspondido. E porque eu não sei o que fazer agora.


Coloca pra tocar e começa.

And I wish it was sweeter the taste of your mouth, because right now, it hurts too much to be

Sonho com o dia em que palavras ganhem forma física. Sejam pequenos pedaços. Para que, dessa maneira, vamos nos engasgar sempre que escolhemos não dizer o que queremos. Vai ficar na cara que existe coisas ali, palavras que querem sair. E ficaremos com tanta vergonha que vamos acabar dizendo de qualquer maneira.

E nesse momento, essas palavras vão sair e aquele que ouviu ficará com elas ali, na mão, para fazer o que quiser. Joga-las no lixo, guarda-las conosco, preserva-las em caixinhas pequenas pra rever sempre que der na telha.

This could be a movie and this could be our final act
we don’t need these happy endings

Mas ai eu me pergunto quantas pessoas iam decidir morrer com as palavras engasgadas. Inclusive você.

E assim, eu acabo preferindo o silêncio.

4

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Quatro anos que eu fui e voltei.

Difícil. Principalmente por que eu nunca senti alegria desse jeito. Sou uma das poucas pessoas que eu conheço que já realizou o grande sonho de uma vida. Isso eu já vivi pra dizer como é.

E eu PRECISO viver de novo.