Falando a verdade.

Falando a verdade, de verdade mesmo, meu mês na Europa foi fantástico. Não foi perfeito, mas foi fantástico. E fantástico é uma palavra que eu uso pouco pra descrever momentos na minha vida.

A outra verdade é que eu não queria ter voltado. Claro, eu sabia que ia voltar, mas não queria. Acho que ainda não voltei. Ou não voltei completa e não sei quando o que ficou vai voltar.

Ou se vai voltar (pra falar a verdade, eu espero que não… e pra continuar falando a verdade, eu sei que vai).

Eu posso falar a verdade e dizer que Berlin é, no fundo, uma cidade meio triste. Que neve é mais legal quando a gente está acompanhado de alguém que nos faça rir.

Vienna, então, parecia meio suja e bagunçada. Tinha lama em todo canto, na verdade. Mas até um parque cheio de lama é bom quando a gente tem alguém pra segurar nossa mão e ajudar a gente a não escorregar.

Budapeste soa meio perigosa e perdida, e é mesmo. Mas um sorriso ao receber um hambúrguer com 3 hambúrgues e destruir o negócio todo, pensar que a pessoa na sua frente vai te achar uma ogra, enquanto ele acha que nunca viu um rosto mais feliz na vida.

Bruxelas é meio amalucada, tem de tudo um pouco. Mas tem cerveja, tem companhia e sempre se pode roubar o segundo gole da cerveja alheia. De verdade.

Malmö é fria em todos os sentidos. O vento parece cortar sua alma, mas a chuva da janela não te assusta. O café da manhã deitada na cama não assusta. Jogar dardos e ser massacrada numa partida nem é a pior coisa do mundo.

E tem muitas outras verdades que eu aprendi e, o problema, é que essas não são as minhas verdades agora. E isso, ao menos ao que parece, eu ainda não entendi.

Sim.

No primeiro dia: You’re nice
No segundo dia: You’re very pretty
No terceiro dia: Olinda is pretty, Recife is beautiful. And you are both.

E no final: You’re wonderful. I hope you’ll find someone wonderful too.

Ainda preciso parar pra escrever sobre isso. Mas no meu coração e na minha memória, já tá tudo escrito. Vai ser pra contar pros netos.

As decepções maternas.

– Você soube que x e y vão se separar?
– Não, mãe.
– Passaram a vida todo juntos, casaram… e já vão se separar. X se apaixonou por outra pessoa. Teve tanto tempo pra se apaixonar por outra pessoa, vai se apaixonar agora.

Eu queria te dizer algumas verdades, mãe.

Tempo, pra o amor, não importa.
Tempo não importa pra muita gente, nem pra muita coisa. Na verdade, o tempo fica ali, sozinho, passando… enquanto tudo acontece independente dele. Como um eremita barbudo, perdido da civilização, envelhecendo.

A gente ama, desama, arma, desarma o coração, sente, se apega e depois joga, as coisas fluem. E o tempo tá ali, distante de tudo isso, como um espectador que nem tá tão interessado assim. Como quando a gente vai pro médico e, no lugar de se ocupar das atravessadas conversas alheias, a gente prefere ler a Caras. Mesmo que a Caras continue sendo a Caras.

Lembro de uma vez, depois da minha primeira grande decepção amorosa, eu chorando no teu ouvido e você me disse:
“Você já viveu seu amor. Não adianta procurar por outro. Você já amou. Não fique mais procurando isso. Procure algo mais simples”.

Mas não é assim, mãe. Amor – vou discordar da Louisa May Alcott – não tem ordem. O primeiro não é maior ou menor que o segundo, terceiro, o que seja. Vez ou outra alguém só tem o primeiro. As vezes, a gente só encontra amor, sei lá, no décimo sétimo. Essa é a verdade, mãe. A minha verdade.

Se o primeiro amor fosse mesmo, como você diz, simples, X e Y não estariam se separando. Não foi simples. Não é. O primeiro amor não é o fim. O tempo não se importar.

Só o sentimento importa, mãe. Infelizmente.

“Filipe,

Você bebe demais.

E esse seu jeito de pegar a garrafa de cerveja… parece um nórdico. Ou qualquer coisa de bárbaro. Escocês. Irlandês. Ou nórdico mesmo. Viking.
Mas acho que é proposital.

Cabelo propositalmente despenteado, barba propositalmente bagunçada, roupa propositalmente amassada.

Bem, ao menos algum proposito você tem. Sai à noite só, mas sempre tem amigos a cada dois passos que dá. Com o sorriso que você tem… acaba sendo fácil mesmo.

Minha mãe sempre dizia pra sorrir. Ser educada. Dar boa noite. Conquistaria as pessoas dessa maneira. Te invejo pelo simples fato de conquistar as pessoas apenas por existir.
Você não precisa dos cínismos das lições maternas. Você tem você mesmo.

Você bebe demais.

Você acha que o mundo te protege. E te ama. Todos, no fim, caem aos seus pés. Foi assim comigo. E é assim sempre.
Sua crença no amor é tão sólida quanto a minha crença no coelhinho da páscoa ou que sua pizza favorita é de mussarela. Não acredito e pronto.

Ah, Filipe…

Você bebe DEMAIS.

Fico lembrando de quando usei sua camisa xadrez, aquela azul com branco, que você deixou aqui em casa. ‘Tenho outras, fica pra você’, com aquele desprendimento e balançada no cabelo. Seu auto-cafuné, como eu costumava chamar.

Você nunca vai parar. Nunca.

Você bebe demais.

Depois de dois anos, voltei onde nós nos conhecemos. E lá estava você. Não me viu. Fiquei no mezanino. Propositalmente. Você sabe. Eu sei. Você nunca sobe. O que você tem que achar, tem que estar na sua frente. Como eu já estive.

E, depois de tudo o que nós passamos, a única coisa que consigo pensar sobre você hoje é…

Filipe. Você bebe demais.”

Antes de você.

Antes de você eu costumava acreditar em algumas coisas. Contos de fadas, papai noel, coelho da páscoa, na felicidade gratuita. Antes de você eu vivia apenas numa bolha.

Antes de você eu não acreditava nos elogios que você me disse. Eu não acreditava que alguém podia gostar de mim pelo simples fato de que eu não possuo um padrão. Não acreditava que alguém gostaria de mim pelo meu peso ou pela minha capacidade de, inevitavelmente, fazer besteira. Antes de você eu acreditava em tudo. Agora, só acredito no que está na minha frente.

Antes de você tudo parecia soar simples. E era simples mesmo. Antes de você eu era cega para mim mesma. E acredito que continuaria cega, se você não tivesse aparecido. Ser cega era simples. Mas nada ficou simples depois que você apareceu.

Antes de você eu escondia segredos sobre mim, fechados a sete chaves, debaixo do oceano. Antes de você eu apenas não acreditava que alguém abriria aquele cofre. Antes de você eu acreditava que boa parte de mim era um segredo de estado, uma área 51 perdida no meio dos meus diários. Você chegou e escancarou tudo, deixou tudo ali aberto e livre pra leitura.

Antes de você tudo era como devia ser.

Agora… agora tudo vai ser como vai ser.