Psychokiller

Estou sem terapia a três meses.

Meu terapeuta inventou de ficar ainda mais caro e não, não dá. Terapia plus remédios. Sem condições. Os remédios eu consigo, amigos médicos <3. Mas…

O problema é a minha última vez no terapeuta.

Inventei de que já estava pronta pra abrir umas feridas. Fiz uns planos com ele, falamos do taxímetro ligado. E agora, tá ai, tudo aberto, escancarado e dolorido.

Me emprestem uns esparadrapos pra fechar esses buracos por que essa dor tá se esparramando e eu já nem sei o que fazer.

O que ninguém avisa.

A gente cresce com medo das várias doenças que tem por aí. Câncer, tuberculose, hepatite, problemas cardíacos, vitiligo, diabetes, enfim. Eu tenho pessoas na minha família que tiveram câncer, meu avô faleceu por ser hipertenso, meu pai é hipertenso. Isso é até normal de falar. Eu tinha um hemangioma que pegava metade do meu rosto e me fazia ser a piada favorita dos meus colegas de sala, mas eu sabia muito bem o que aquilo era. E quando as pessoas estranhavam, eu sabia responder.

Agora o que você pensa ao dizer que tem uma doença mental?

Sua mãe depressiva, seu tio esquizofrênico, sua prima borderline.

Sempre fica aquele silêncio. Aquele vazio.
Você que tem não fala. Apenas toma seus remédios em silêncio, vai pra o seu psiquiatra ‘fugido’.

Pra quê isso? Pra criar ainda mais preconceito na cabeça de todo mundo? Pra ficar que nem um monte de pessoas que eu vejo por ai que podiam ser muito melhores, mais felizes, mais saudáveis, ter uma vida OK, mas não são pelo simples fato de não aceitarem ir a um médico.

Uns dois meses atrás, uma pessoa que eu conheço postou no facebook algo como ‘Pelo fim da bipolaridade das pessoas’ e uma hashtag qualquer. Aquilo me incomodou. Possivelmente eu faria a mesma piada uns anos atrás – assumo isso na boa. Mas agora, não. Respondi que ela tava falando da bipolaridade errada. Ela respondeu que não. E eu retruquei de modo bem humorado ‘então dá dois comprimidos de litio 450mg por dia que melhora’.

Duvido que ela tenha entendido.

Ser bipolar não é uma piada que você coloca no facebook. Ter uma doença mental tem que deixar de ser tabu. Se existisse o mesmo tabu que existia em relação a AIDS anos atrás, não existiriam coquetéis de remédios, tratamentos, aumento da vida do paciente. Pior é você ter e não se tratar, não saber viver com isso.

E não é de mim, a garota de 22 anos que vai tomar remédio a vida toda, vai ser taxada de louca, apenas por que assume uma doença que ninguém quer assumir, que eu vou ter pena. É de você.

Ser/Não ser.

Pra ser sincera, não é fácil de ouvir não.

Por mais que você já saiba, por mais que esteja ali na sua frente… ouvir não é fácil. Mesmo que a notícia seja dada por um senhor velhinho e careca, de camisa de botão roxa, num consultório com quadros na parede e muito claro, com um sorriso simpático e que te busca na porta do consultório.

Como é que vai ser agora? Como eu vou me apresentar pra’s pessoas?

Meu nome é Heloíza, eu tenho 22 anos e sou bipolar.

Sou não. Tenho transtorno bipolar. Ainda preciso me convencer disso, pra ser sincera.

Por que eu preciso, o tempo todo, me convencer que eu sou um pouco mais do que o diagnóstico. Mas é difícil.

Primeiro, por quê ninguém realmente sabe o que é bipolaridade. Ninguém sabe como funciona. Nem como é. Nem como vai ou como pode ser. Minha mãe, mesmo, foi procurar no google.

Eu também, mãe. Eu também.

E nesses passeios, descobri o simbolo da bipolaridade. 3 caracteres. E muitos sentidos.

pb
P.s.: os post sobre a doença vão ser frequentes no blog. Parte da terapia.
P.s.: meu celular quebrou, por isso, o projeto 365dias vai atrasar um pouco, mas logo logo tá de volta :o)