whoever she is

1. She could be money, cars, fear of the dark
Your best friends are just strangers in bars

– Você vai beber mais uma cerveja? – o ele perguntou
– Não. Essa foi a última mesmo – e abriu a carteira, entregando-o uma nota de 20 reais – Sua gorjeta.
Ele sorriu. Sempre a mesma nota amarela de 20 reais.
– O bar vai fechar em pouco tempo. Tu precisa de táxi?
– Provavelmente.
Ela estava mais pálida que o normal. Os cabelos estavam mais longos do que o normal. E ele conhecia o normal, já que ela estava ali todas as quintas, por dois anos. O normal era curto atrás, com mechas mais longas na frente. Agora eles alcançavam os ombros, visivelmente estragados.
– Você pode esperar o bar fechar e a gente pode rachar um. Digo, se for o mesmo caminho.
– Um bartender que vai de táxi pra casa? – a sobrancelha dela arqueou.
– Um dono de bar que vai de táxi pra casa.
Por dois anos, ele a acompanhava todas as quintas. Servia cervejas, petiscos, recebia 20 reais de gorjeta. O dialogo era pouco. Mundano. Ela nem sabia que ele era o dono do bar, ao contrário de todos. Mas todos estavam sentados nas mesas, acompanhados, vivendo. Não ela. Ela se sentava no balcão.

Debaixo de um dos refletores, uma das partes mais claras do bar, mas ainda assim… distante.

– Eu moro a 20 minutos daqui. Norte.
– Eu também.
– Ok.

Ela o esperou nas escadas. Fumava. Jogou o cigarro no chão e estendeu a mão para o táxi assim que ele aproximou-se.

Passaram o caminho em silêncio. As únicas palavras trocadas foram instruções entre ela e o motorista.

Mesmo assim, compartilhavam o banco de trás do carro. Ela tirava as sapatilhas azuis dos pés, mexia na bolsa.

20 minutos depois, o motorista parava na frente de um prédio.
Ele a olhou procurar a carteira, as chaves e agradecer o motorista.
Pensou em dizer alguma coisa. Em perguntar. Em se convidar. Pensou e não falou.

– Até quinta.

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As decepções maternas.

– Você soube que x e y vão se separar?
– Não, mãe.
– Passaram a vida todo juntos, casaram… e já vão se separar. X se apaixonou por outra pessoa. Teve tanto tempo pra se apaixonar por outra pessoa, vai se apaixonar agora.

Eu queria te dizer algumas verdades, mãe.

Tempo, pra o amor, não importa.
Tempo não importa pra muita gente, nem pra muita coisa. Na verdade, o tempo fica ali, sozinho, passando… enquanto tudo acontece independente dele. Como um eremita barbudo, perdido da civilização, envelhecendo.

A gente ama, desama, arma, desarma o coração, sente, se apega e depois joga, as coisas fluem. E o tempo tá ali, distante de tudo isso, como um espectador que nem tá tão interessado assim. Como quando a gente vai pro médico e, no lugar de se ocupar das atravessadas conversas alheias, a gente prefere ler a Caras. Mesmo que a Caras continue sendo a Caras.

Lembro de uma vez, depois da minha primeira grande decepção amorosa, eu chorando no teu ouvido e você me disse:
“Você já viveu seu amor. Não adianta procurar por outro. Você já amou. Não fique mais procurando isso. Procure algo mais simples”.

Mas não é assim, mãe. Amor – vou discordar da Louisa May Alcott – não tem ordem. O primeiro não é maior ou menor que o segundo, terceiro, o que seja. Vez ou outra alguém só tem o primeiro. As vezes, a gente só encontra amor, sei lá, no décimo sétimo. Essa é a verdade, mãe. A minha verdade.

Se o primeiro amor fosse mesmo, como você diz, simples, X e Y não estariam se separando. Não foi simples. Não é. O primeiro amor não é o fim. O tempo não se importar.

Só o sentimento importa, mãe. Infelizmente.