“Filipe,

Você bebe demais.

E esse seu jeito de pegar a garrafa de cerveja… parece um nórdico. Ou qualquer coisa de bárbaro. Escocês. Irlandês. Ou nórdico mesmo. Viking.
Mas acho que é proposital.

Cabelo propositalmente despenteado, barba propositalmente bagunçada, roupa propositalmente amassada.

Bem, ao menos algum proposito você tem. Sai à noite só, mas sempre tem amigos a cada dois passos que dá. Com o sorriso que você tem… acaba sendo fácil mesmo.

Minha mãe sempre dizia pra sorrir. Ser educada. Dar boa noite. Conquistaria as pessoas dessa maneira. Te invejo pelo simples fato de conquistar as pessoas apenas por existir.
Você não precisa dos cínismos das lições maternas. Você tem você mesmo.

Você bebe demais.

Você acha que o mundo te protege. E te ama. Todos, no fim, caem aos seus pés. Foi assim comigo. E é assim sempre.
Sua crença no amor é tão sólida quanto a minha crença no coelhinho da páscoa ou que sua pizza favorita é de mussarela. Não acredito e pronto.

Ah, Filipe…

Você bebe DEMAIS.

Fico lembrando de quando usei sua camisa xadrez, aquela azul com branco, que você deixou aqui em casa. ‘Tenho outras, fica pra você’, com aquele desprendimento e balançada no cabelo. Seu auto-cafuné, como eu costumava chamar.

Você nunca vai parar. Nunca.

Você bebe demais.

Depois de dois anos, voltei onde nós nos conhecemos. E lá estava você. Não me viu. Fiquei no mezanino. Propositalmente. Você sabe. Eu sei. Você nunca sobe. O que você tem que achar, tem que estar na sua frente. Como eu já estive.

E, depois de tudo o que nós passamos, a única coisa que consigo pensar sobre você hoje é…

Filipe. Você bebe demais.”

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