O dia em que eu conheci meu grande amor.

Existe algo bom em ser filha de professores. Ganhar livros a cada dois anos. Não que eu não compre/ganhe livros (nunca dos meus pais, minha mãe acha caro e supérfluo – e ela é professora de português e foi ela mesma que me ensinou a ler) durante esse tempo, mas é que na Bienal, 100 reais estão ali, me esperando. E eu posso comprar livros mais caros (e os que eu não tenho paciência de procurar).

Mantenho uma bizarra tradição de comprar quadrinhos na Bienal. Mafalda, Calvin. E nesse ano, não quis ser diferente.
Fiz uma lista de quadrinhos para procurar e, na primeira loja que eu entrei, fiquei. E comprei um dos livros da lista: Retalhos, do Craig Thompson.

Li “Retalhos” na casa do meu tio, sentada no chão, ouvindo meu primo de cinco anos de idade gritar e reclamar por qualquer besteira. Normalmente, eu pararia de ler, tentaria resolver algo e deixaria aquele momento para outro momento.
Mas não.

Primeiro a criança com a camisa de super héroi que dorme na mesma cama que o irmão. Depois o adolescente apaixonado.
E foi por esse adolescente apaixonado que eu me apaixonei.

A magreza, os cabelos desgrenhados. Era como se eu fechasse meus olhos e ele fosse o meu primeiro amor. Subitamente, ele fazia parte do Hall do Relacionamentos Platônicos que eu possuía. Seja lá isso bom ou ruim.

Retalhos tem gosto de primeiro amor. Memórias de primeiro amor.
Sejam as que merecem ser queimadas ou não.

Sobre não sentir falta.

Eu devia sentir falta das coisas. Mas eu não sinto.

Ou não ando sentindo. Eu não era assim…
Eu era nostálgica. Hoje eu sou desapegada.

Não foi um caminho que eu escolhi não. Aconteceu. Pronto. Eu já havia eliminado saudades e vontades que não valiam a pena serem sentidas. Deixei pra lá.
Antes que vocês perguntem, não existe uma fórmula do sucesso pra desapegar não. Você acaba lembrando de esquecer… e esquece. É assim, tipo quando você vai morder uma surpresa de uva e descobre que não tem uva, só a surpresa. E fica mais gostoso assim mesmo…

já me transformei em pó.

Você sabe quem é ela. Com certeza.

Ela normalmente se sentava no canto da sala, com duas cadeiras. “Não tem cadeira de canhoto, eu tenho que adaptar”, ela dizia.
Mentira.
É que aquelas duas cadeiras são um forte. Lá, entre as cadeiras, ela está protegida. Entre mochilas, cadernos, casaco, uma parede e fones de ouvido na hora do intervalo.

Você deve achar que ela nunca vai ter um namorado. Que vai ser uma workholic obesa mórbida, com sete gatos e dois chinchilas. E vai morrer virgem.

Você não sabe, mas imagina, que aquela garota já teve dois lixeiros jogados na sua cabeça. Você não sabe, mas os pais dela se separaram. Você também não sabe, mas ela sempre quis ser igual à todo mundo. E você também não sabe, mas ela luta por algo que nunca vai conquistar todos os dias.

hot like mexico

As vezes, você só precisa acordar.

Acordar mesmo, abrir os olhos, se contorcer na cama, empurrar o lençol com o pé (rezando para que ele voltasse e te cobrisse novamente), pisar no chão frio que parece repetir que ‘hey, você se fudeu’.
Você fica tateando por um pouco de coragem espalhada pelos corredores, por um pouco de ânimo caindo do chuveiro. Mas não acontece.

As coisas não acontecem assim.

Seu dia vai ser uma merda. Com sua mãe reclamando e tagarelando o quão gorda você está. E que seu namorado vai te abandonar. E etecetara.

Não vai ser um dia legal.

Você vai sentir frio, fome e tédio. Vai sentir vontade de explodir a Universidade. E ela vai continuar ali. Fixa. Fixa como aquela vontade louca de mandar tudo pra os ares que eu tenho. Diria que fixa como a minha pança, mas eu marquei o endocrinologista pra sábado. Wait and see.

buenas.

7:15 Acordei atrasada. Tomei banho, me vesti, coloquei comida na bolsa e fui pra parada.
8:45 Ônibus quebra. Subo em outro ônibus. Todo mundo sobe pela parte traseira. Menos uma mulher. Ela quer que o cobrador pague a ela 1.75. Por que o ônibus que ela pegou custava 3.75 e o novo ônibus custava 2 reais.
9:00 Mulher continua brigando com cobrador por causa do 1.75
9:03 Mulher começa a gritar por que, para ela chegar ao Shopping da Conde da Boa Vista, ela vai ter que atravessar a rua. E no outro ônibus, ela não precisaria.
9:05 Mulher ameaça bater no cobrador.
9:08 Mulher dá um soco no cobrador
9:10 Metade do ônibus se desloca pra acabar com a briga. Mas é meio FAIL por que a mulher era maior/mais gorda que todos eles juntos e multiplicados por 100.
9:12 Uma outra mulher senta do meu lado lendo: ‘Em busca de um namoro cristão’
9:15 Outra senhora começa a gritar ‘ELA TÁ POSSUIDA EM SATANÁS’ e isso é motivo o bastante pra ela começar a distribuir ‘santinhos’ pelo ônibus.
9:20 Depois da baixaria, a mulher começa a chorar. LOUCAMENTE.
9:21 Eu saio do ônibus… NÉ? Já deu…

e EU JURO, só passei por debaixo de um escada depois de tudo isso. Juro.