fall at your feet

Eu caí.

Cai mesmo, com direito à gesso e tudo. Cai no momento que eu desci do ônibus, no meio da rua da amargur.  Eu e Paulo, 3º periodo de licenciatura em geografia. Eu e os óculos com armação escura, calça jeans e camiseta vermelha. Talvez eu devesse colocar cartazes espalhados por todo o centro de filosofia e ciências humanas da universidade federal de pernambuco procurando por ele e perguntando se a professora de práticas de ensino reclamou alguma coisa por causa do atraso.

‘Eu estava ajudando uma anônima que caiu do ônibus e estava com o tornozelo do tamanho de uma bola de tênis’.

Ou não tão anônima, por que eu me apresentei (Heloíza, faço museologia). E ele ficou ali, sentado no meio fio, esperando por um sinal de um velho corsa branco. Comigo.

Boa noite, anônimo. Você fez minha noite de fodida um pouco menos fodida.

museu e o cemitério

Tá. Eu tenho que assumir.

Museus são uma versão ‘modernete’ e bonita de cemitérios. Eu posso provar: trabalho em um que conta a história de uma pessoa… morta. Morta com uma história. Mas morta.
E, pra declarar ainda mais meu pensamento, eu trabalho em um museu dentro de um hospital.

As vezes, condenada à solidão (drama), eu ouço fantasmas.  Fantasmas que batem no batente, que abrem a porta, que falam, que fingem que gostam, que gostam de verdade, que não tem tempo, que usam jaleco.

De vez em quando, os fantasmas gostam de conversar. Alguns até sorriem. Me acompanham pelas duas salas, me fazem as mais diversas perguntas.

Outros (para não dizer, a grande maioria) diz bom dia e só. Outros ainda parecem meio cegos perdidos em tiroteio.

Nem sempre os fantasmas se divertem. Alguns ficam nostálgicos, já vi uns chorarem e outros me abraçarem como se eu fosse uma espécie de coveiro importante.

Importante eu não sei. Mas se coveiro receber melhor que estagiário, eu tô aceitando…

ticket to heaven

Ah, meus 15 anos.

Era 2006 e eu gostava de emocore. São só cinco anos atrás, mas quando eu resolvo parar pra pensar… Parece tão diferente. Eu pensava que eu ia ter uma banda. Ou ser uma groupie virgem, que ia ser radical e dar um mosh num puta show.

Ah, meus 15 anos.

Eu tinha o cabelo curtinho e acabado de colocar um piercing. Um completo ato de rebeldia. Minha mãe mesmo me disse que não ia sair comigo usando aquilo na boca. Tadinha dela.
Uma semana depois, ainda com os lábios inchados, eu fui para um show. Me segurei por 3 bandas e não entrar na roda punk. Mas eu era rebelde.

Entrei e levei uma cotovelada no lábio em menos de dois minutos. E olha, mãe, eu sobrevivi. E ganhei mais umas duas ‘ronxas’ (que ela, claro, nunca soube).

Hoje faz tempo que eu não entro em uma roda punk. Faz tempo que eu não faço nada punk.

Me proponham um desafio. PELO AMOR DE DEUS.

enough of these useless sunsets

Dai você acorda na segunda-feira e acha tudo uma bosta. Seu olho tá inchado, você sai na rua com medo que denunciem seu namorado por violência contra à mulher (alô lei mª da penha), tem aula de ballet, sua meia calça-rosa resolve te deixar na mão e a unica aceitável é a vermelha,  chega atrasada e vai direto para os saltos.

Depois de um feriado cheio, me dei folga na segunda. Folga do mundo (seja lá quem faz parte desse mundo). Folga da minha depressão por causa da minha pele cheia de espinhas, folga do adaptador de tomada do notebook queimado, folga de deus e do universo e tudo mais. Folga de pensar que eu não tenho idéia de quando vou receber meu salário. Folga de uma conta gorda pra o meu salário e estagiária no cartão de crédito (e só de coisas um tanto quanto inúteis).  Folga da tristeza besta.

the unwinding cable car

You’re motive and stable
You’re like an unwinding cable car

 

As vezes, eu ouço essa música por ouvir. É tão bom fazer essas coisas de vez em quando: fazer por fazer mesmo. Mas, tenho que assumir, a maioria das vezes que ouço unwinding cable car, eu a ouço para sentir.
Eu respiro fundo e ligo o media player (é, pode-se dizer que eu sou retrô). É como quando a gente sai debaixo de sol e, ao chegar em casa, entra em contato com água gelada.  Tudo parece novo. Cada ruga, cada pequeno pedacinho de pele… Parece que acabamos de sair do útero (ou de um SPA).

Depois de um dia amalucad0, descontrolado, ouvir unwinding cable car me acalma. É um tipo peculiar de placa indicativa: siga por esse caminho e vai ficar tudo okay. Por que é mais ou menos por ai que a minha vida funciona.
Não acredito que caras como Stephen Christian tenham sido criados aleatóriamente.  As vezes acontece da sua vida meio que fazer sentido à partir de coisas completamente tolas, mas tudo, alguma vez, já foi meio tolo mesmo. Inclusive você.