hey, i put some new shoes on

Por motivos de força maior, eu sucumbi ao contrário da maioria das pessoas e durmo, atualmente, de costas para a porta. Ou melhor: de cara com uma janela.

Dessa janela, eu vejo outras janelas e um pedacinho de algumas varandas. E sombras, muitas sombras. A maioria não dá pra ‘reconhecer’, outras são tão assustadoras que eu prefiro simplesmente ignorar.
As vezes, quando bate um medinho, eu ligo o lava-lamp e tento focar em qualquer outra coisa ao meu redor. A sombra que a lava faz na parede, meu celular perdido no meio da multidão de coisas que eu joguei pelo caminho assim que eu cheguei em casa, o sapato jogado no chão esperando pra ser usado no outro dia pela manhã.

Acho que observar essas coisas me ajudam a pegar no sono. Minha mente acaba se movimentando muito rapidamente e lembrando de todas as coisinhas fora do lugar que, obviamente, vou ter que arrumar em algum momento.  Isso cansa. Pensar demais me deixa cansada, até mesmo deprimida. Mas, ao mesmo tempo, facilita bastante minhas noites de sono.

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O real e o metrô

Anos da minha vida foram especialmente dedicados ao metrô.

Eu o usava, basicamente, para tudo. Mas os anos passam (eterno clichê), eu me mudei e abandonei. Usei poucas vezes em todos esses 10 últimos anos (menos em Buenos Aires, que o metrô era meu melhor amigo).
Acontece que esse confuso transporte urbano voltou à fazer parte de mim. Tão cheio quanto o Candeias/CDU de 17:40, mas com o mesmo ar-condicionado do Candeias que custa 3,75. Tudo por dois reais.

As vezes, eu tenho que batalhar por uma cadeira. Mas não uma cadeira qualquer: a mais perto possível da porta.
E as pessoas vão entrando. Todas, todos os tipos. Leis da física tornam-se fracas e difíceis de ser entendidas. Todo mundo cabe ali. Metrô é igual à coração de mãe. E, no final, ‘mais um’ é um conceito muito abstrato.

Na última vez, eu não consegui uma cadeira e tive que ficar em pé. Na frente da janela, vendo meu rosto, minha camiseta da Hello Kitty e meus cabelos bagunçados em um pseudo-espelho. Descobri por que Afogados se chama Afogados, mas Ipiranga e Werneck ainda não possuem explicação. E aqueles icones? Significam alguma coisa?

E vão se passando as estações… Cada vez, eu olho mais aliviada por perceber que, com o tempo, menos pessoas vão entrando no vagão. É como se meu coração as amasse. Amo ainda mais as que saem antes de mim. As que não gritam. As que não cheiram à peixe podre. As que pedem licença, minha filha. As que seguram minha mochila.

Pegar metrô me ensina que as coisas não são tão ruins assim.

tiny dancer

As vezes a gente acorda com vontade de se apaixonar.

Mesmo dois anos de namoro (recém completados, parabéns para mim), as vezes, eu sinto falta do momento que se olha para uma pessoa e não imagina que, daqui à algum tempo, eu vou sonhar com ela. Talvez nós ficaremos juntos, talvez eu passe minhas noites ouvindo Pearl Jam para tentar esquece-la.
Eu sinto saudade da fossa, do sonho e do gostinho de coisas novas.

Mas eu olho para o meu ‘velho’ namorado. Chego à conclusão que eu não preciso de nada novo.
Namorar é como uma televisão. Se ficar velha, dá pra consertar. Mas se não dá… Hora de comprar uma nova.
Aliás, de certo modo, amar em geral é como uma TV. Com ou sem ironias.

Tenho o doce prazer de dizer que amo quem eu tenho. Assim como tenho o doce prazer de ver How I Met Your Mother durante os fins de semana enquanto sonho com batata frita.

Amar é, na verdade, viver.

james freud joyce

‘What was after the universe? Nothing. But was there anything round the universe to show where it stopped before the nothing place began? It could not be a wall; but there could be a thin thin line there all round everything. It was very big to think about everything and everywhere.’ (James Joyce)

crocodile rock

– Uma meia para Gnomeu e Julieta, por favor.
– Uma?
– É, uma. 4,50 certo? – passei o dinheiro o mais rápido que pude para ela – Sessão de 16:15.

Ela passou o ingresso e eu sai.

Hoje é 8 de março, ou seja, dia internacional da mulher. Clichê falar sobre quantas mulheres queimaram sutiens, morreram e lutaram pra gente ter um dia dedicado à ganhar flores, parabéns ou chocolates (ou só ganhei um, depois de ter pedido).
Ou seja, é o melhor dia possível para eu me provar que sou independente o bastante e ir ao cinema. Sozinha.

Todos os outros dias do ano, as pessoas me achariam uma baranga (ou charanga, como insiste o corretor automático – seja lá o que isso queira dizer) solitária, encalhada e frustrada, que só precisa de alguma comédia romântica boba e pipoca pra descarregar as dores. Não hoje, dia da mulher. Hoje eu sou independente. Pago minhas contas com meu salário, como no Chinatown e na BK feliz da vida.
Hoje eu não quero ninguém olhando pra mim. Hoje eu não quero ouvir voz de mais ninguém que eu não queira conversar.

Então você, atendente do box cinemas do shopping guararapes, se prepare. Eu vou pedir mais uma meia entrada por ai de vez em quando.